O que é pleno emprego e porque não temos isso Brasil

Medir o quanto se trabalha é tão importante que os economistas passaram a acompanhar os índices de emprego atentamente. Até criaram índices para medirem quanto há de desemprego e quantos postos de trabalho faltam para atingir o pleno emprego. Funciona assim: quando a oferta de empregos é igual a demanda temos equilíbrio e pleno emprego. Quando a oferta de empregos é inferior a demanda temos desemprego. E quando a oferta de empregos é superior a demanda? Temos um “boom empregatício” em que empregadores competem por mão de obra aumentando salários e proporcionando mais opções de trabalho e ganhos salarias reais ao trabalhador mercado de trabalho. Raro ver isso no Brasil não é mesmo? Eis um breve ensaio do porquê.

O que é pleno emprego

No modelo norte americano o pleno emprego é atingido naturalmente, por forças de oferta e demanda do mercado de trabalho. Ou seja, trabalhadores e empregadores acordam entre si livremente as melhores condições para ambos. Quem paga bem e dá benefícios atrai os melhores, quem paga menos contrata os menos experientes. Não há garantias asseguradas em lei. Isso por alguns é percebido como sendo ruim, mas na verdade não é.

Pelo trabalho não ser regulamentado, há menos risco para o empregador de empregar. Há mais flexibilidade de renegociar acordos para manter empregos quando a economia não vai bem. E quando a economia vai bem o que acontece é que as ofertas de trabalho aumentam exponencialmente pois os empregadores arriscam mais. Com a ampla oferta de trabalho, em vários níveis salariais e condições de trabalho variadas, numa situação econômica favorável, o que acaba acontecendo com certa frequência é que pode ocorrer BOOMS de oferta de emprego. Ou seja, o mercado de trabalho começa a demandar mais mão de obra a além da oferta de mão de obra.

Nos Estados Unidos de 1998 a 2000 depois entre 2003 e 2005, eu e outros colegas de universidades nos EUA vivemos os efeitos positivos desses BOOMS. Toda semana havia headhunters, profissionais contratados por empresas para buscar talentos, com ofertas para alguma vaga de emprego, cada um com uma oferta melhor que o outro. Num desses episódios me lembro de algum headhunter me dizer que mesmo que os EUA aceitem 2 milhões de imigrantes trabalhadores anualmente, havia emprego para pelo menos o dobro dessa quantidade!

Mais de dez anos depois do último boom, e também depois de uma grave crise financeira, os Estados Unidos convivem novamente com um mercado de trabalho aquecido. Como mostra o gráfico abaixo, o desemprego caiu para menos de 5% pela primeira vez em dez anos. Foi a terceira vez que isso aconteceu em menos de 20 anos.

Queda na taxa de desemprego nos Estados Unidos
Queda na taxa de desemprego nos Estados Unidos

E no Brasil? Atingir a situação de pleno emprego por aqui é complicado, pois o mercado de trabalho ainda é muito regulado – mesmo depois dessa tentativa de reforma da CLT. O modelo para atingir o pleno emprego no caso brasileiro é mais através de intervenção do Estado, (i.e., de gastos do governo em infraestrutura, inchaço da administração pública) do que por forças de oferta e demanda naturais de um verdadeiro mercado. Isso ocorre, pois, a livre iniciativa é regulada e as leis trabalhistas desestimulam empregadores a criar novos postos de trabalho.

Mesmo se houver recuperação econômica no Brasil, pequenos empresários, os maiores criadores de postos de trabalho, vão hesitar em contratar pois os riscos de ter que voltar a demitir se a recuperação não for de fato duradoura é muito grande. As condições impostas por lei, como multas de rescisão, tornam novas contratações em riscos para todo o negócio da pequena empresa. Acrescente a isso para um governo populista que prometeu demais. Só através de empregos gerados no setor público ou através de acordos com sindicatos e grandes empresas que parcelas da classe trabalhadora obtém ganhos, e esses ganhos são na verdade irreais, são ganhos legislados, por decreto, ou negociados. Eles são, portanto, insustentáveis.

Chegar ao pleno emprego no Brasil é uma questão de política de Estado e não de mercado, o que torna essa possibilidade mais distante e preocupante, pois as politicas de governo que forem adotadas para certamente demandarão algum ajuste futuro. Economias planejadas centralmente pelo governo não são eficientes em gerar boas condições para o mercado de trabalho, muito pelo contrário.

Agora vocês me perguntam: Luiz, se atingir o pleno emprego no Brasil já é difícil, será possível chegarmos ao boom empregatício?

Se acertar na mosca já é improvável, imaginem no olho dela.

27 COMENTÁRIOS

    • Elton, neste caso, em que pese exista sim, lei, o que pesa mais é o acordo entre empregado e empregador. Ou seja, neste contrato vai estar escrito que o empregado há de pagar X todo 5o dia útil. Logo, se houver atraso, o empregado pode recorrer à justiça não pelo que uma lei preconizou, mas pelo que o livre acordo entre patrão e empregado estipulou.

      Nos EUA , exemplo do Luiz, pesa ainda o fato de que litigar é muito caro para quem está sem razão. Logo, o raciocínio lógico do empregador é pagar o que foi acordado e evitar os custos de reclamações trabalhistas. Aqui no Brasil estes custos são altos não pelas taxas cobradas, mas pela concessão de absurdos pela Justiça do Trabalho garantidos pela CLT e que engessam a empregabilidade, como muito bem colocado no artigo.

    • Oi Elton, tudo bem?
      Eu sou um conservador e acredito no livre mercado.
      A resposta para a sua pergunta é muio simples, a garantia trabalhista é o contrato que ambas as partes assinaram, esse contrato tem a função de garantir a segurança de todos.
      A liberdade virá com mais responsábilidade.

  1. Na minha cidade natal, Campos do Jordão, somente por conta de uma única lei, foram colocados na rua mais de 4 mil trabalhadores, seguramente a maioria informal. A quase totalidade formada por caseiros, onde tinham condições não apenas dignas de moradia, como o convívio com pessoas de outras classe sociais. A lei era a “Lei das Domésticas”. Este fato agravou a questão da discriminação espacial, também chamada de segregação urbana na cidade, com impactos sociais e ambientais graves, já que o processo de favellização – escrito com dois “L” para se ter o entendimento da raiz republicana do problema – foi acelerado.

    Hoje temos algo próximo de 2 milhões de NEM-NEM, e a grande maioria se encontra nesta situação por restrições legais, impossíveis de serem atendidas por um pequeno empreendedor, como um serralheiro ou uma floriculturalista, que gostaria de ter um aprendiz, como jovens a procura de trabalho, mas a legislação inviabiliza isso, sem contar que agrava ou adia um dos mais importantes elementos da competência de um profissional, a experiência.

    Além das restrições legais, temos a falta de entendimento do que é de fato importante, Cito a competência e não a educação escolar somente.

    Mas afinal o que é competência?

    Eu defino como a soma de cinco termos, são eles que fazem a diferença. Sim, a educação formal, ou melhor, a escolarização, está incluída, mas não é a mais importante, é bom que se entenda isso:

    (1) educação, a educação que devemos receber em casa pela família (Ver Artigo 229 da Constituição), a qual não pode ser terceirizada;

    (2) o ensino ou a escolarização, a educação formal, obtidas através de entidades supervisionadas pelas secretarias municipais e estaduais de educação, e no nível superior pelo MEC – Ministério da Educação ou suas congêneres em outros países. E mesmo ela para ser eficaz, necessita de famílias que sejam educógenas.

    E uma família que não sabe educar em casa, também não sabe ser educógena, aliás uma questão que é cada vez mais relevante na avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) – Programme for International Student Assessment da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O mesmo PISA que nos coloca cada vez pior avaliados.

    (3) formação (treinamentos, estágios, visitas técnicas, on-the-job training, Hangouts, congressos, seminários, encontros, painéis, Technical Papers, etc.);

    (4) habilidade (saber-fazer e saber-ser) e

    (5) experiência.

    Competência é a soma, é ela que faz toda diferença na hora da busca por um novo emprego, ou o sucesso frente aos clientes na busca por atender as suas exigências.

  2. Acredito que um mercado menos regulado seria melhor para os trabalhadores, mas, se os abusos tanto por parte do trabalhador qto dos patrões fossem punidos com rigor.

    • É o ônus do livre mercado Jorge, como foi falado acima pelos colegas, virão responsabilidades juntamente com a liberdade, isso gerará o risco que é o limitante natural do mercado. Tanto da parte do empresário quanto do colaborador haverá uma pressão, sendo que nossas leis trabalhistas atuais tendem a proteger mais o trabalhador, portanto na minha visão, o que haverá é um cuidado muito maior do patrão ao pensar em lesar o funcionário através de um contrato ilegal, que fere requisitos básicos de um lado e do outro.

  3. Mesmo o mercado de trabalho não sendo regulado ainda existe um contrato de trabalho, meu pais sempre trabalhou com empreitas e tudo é informal e nunca sofreu um calote do contratante.

  4. Perfeito . Pensamento moderno, liberal e socialmente justo . Para eventuais faltas do patrão ou do empregado existe a Justiça comum, como em todo mundo . Deveríamos ter um código do trabalho , como foi a Carta del Lavoro da Itália, que inspirou a CLT , curta e grossa . Fala em pagamento de salários em dia, direito de férias ,carga horaria máxima em contrato e no despedimento deveríamos ficar no FGTS COM OS DEZ POR CENTO APENAS, como no inicio e sem estes penduricalhos que engessam o mercado.E sem cota disto ou daquilo , tolerância com faltas não justificadas , Os que precisam de cotas devem ser amparados pelos governos que devem cuidar do social , treinando estas pessoas , capacitando que o mercado os absorverá . Um minimo pois afinal estamos num país cheio de mal exemplos .

  5. O calote do empregador ao empregado no Brasil pode ser considerado um problema cultural; Isso, eu acredito, acontece exatamente por causa do excesso de regulação onde todos perdem. Eu estou morando há pouco tempo aqui nos EUA e já percebi o quanto é mais produtivo trabalhar por conta própria onde os ganhos são maiores do que no trabalho formal (dependendo do trabalho e da qualificação do empregado, é claro). Por outro lado, trabalhar informalmente requer disposição e vontade além de superar o traumático preconceito de ” trabalho digno ” que o brasileiro tem.

  6. “Se acertar na mosca já é improvável, imaginem no olho dela.”
    Sim.
    A única maneira de obtermos resultados é pela soma de esforços; Cada um, no que possa contribuir, faça a sua parte. Compartilhar ao máximo o seu trabalho, Dom Luiz, ao que já estou me dedicando, é muito importante. Agradeço-lhe imensamente, e AVANTE, BRASIL! Deus o abençoe! Deus seja por todos nós!

  7. Sim.
    A única maneira de obtermos resultados é pela soma de esforços; Cada um, no que possa contribuir, faça a sua parte. Compartilhar ao máximo o seu trabalho, Dom Luiz, ao que já estou me dedicando, é muito importante. Agradeço-lhe imensamente, e AVANTE, BRASIL! Deus o abençoe! Deus seja por todos nós!

  8. Seu texto está absolutamente correto, principalmente no que tange a uma constatação primordial: somos uma economia centralista, pautada por um governo central que inibe as iniciativas privadas. Ocorre no Brasil que estamos num interregno entre um autoritarismo de Estado e uma necessidade de liberação das iniciativas. Imposições, restrições, regulamentações em excesso e uma legislação trabalhista, que mesmo agora reformada, não perdeu suas características impositivas. Por essas e outras é que somos conhecidos no exterior por termos uma economia fechada. Solução para isto, não a temos de imediato. Somente a longo prazo, com a mudança dos paradigmas educacionais à toda população, poderemos esperar por uma sociedade mais liberal, ou liberada para tomar iniciativas.

  9. Creio que a legislação trabalhista tem de existir até para passarmos da pré-historia das relações trabalhistas para um segundo estágio, um pouco mais moderno. Sugiro que se elabore níveis de legislação de acordo com o volume financeiro e o tamanho da empresa. Quanto mais sofisticada a empresa mais sofisticada a legislação, até mesmo uma legislação mais precisa que a atual, que generaliza tudo e todos submetidos a ela. Sugiro uma legislação para cada setor da economia. Quanto mais primitiva a empresa menos legislação, até mesmo chegarmos a zero legislação. A mesma lógica deveria ser aplicada à carga tributária que incidiria sobre as pessoas jurídicas.
    D. Luiz, não consigo esquecer o vídeo que fala do município como agente principal da federação, no atendimento às necessidades da população. Acredito que a mesma lógica trabalhista deveria ser oferecida aos estados e municípios, na elaboração de alguns itens que não se oponham a legislação federal.
    PARABÉNS! tenho divulgado o seu trabalho ao máximo, dentro das minhas limitações. OBRIGADO!

  10. O texto é ótimo, acho que a CLT é um grande entrave para que ocorra um verdadeiro crescimento econômico no Brasil. Mas como migrarmos para uma flexibilização nesses moldes sem que haja uma mudança na Cultura tanto de empregador quanto de empregado. O que impediria o empregador de cometer abusos quando fossem elaborados esses contratos/acordos? Como seria até que o mercado estivesse aquecido suficientemente para equilibrar essa relação com vagas de trabalho em número maior que o de mão de obras disponível? De que forma os trabalhadores estariam dispostos a correr esse risco. Obrigado

  11. Pois é. .. todo herdeiro tem por princípio manter o império herdado, o Brasil só perdeu quando se independeu de suas raízes. Otimo artigo apesar da triste realidade dele.

  12. Caro Luiz (interessante chamá -lo pelo 1o nome rs)

    Concordo. Realmente não há dúvidas quanto à isso. Acho que o problema é que a CLT é apenas uma pequena parte do problema, me pergunto se resolvermos isso, se todo o resto do “custo Brasil ” não irá deturpar o resultado.

  13. Se com legislação o patronato já explora seus empregados, imaginemos o que pode acontecer se a CLT recém aprovada não receber a resposta de sindicalistas sérios. motivando suas categorias a reagirem. Não dá para omitir que as modificações surgiram de imposições da classe patronal, não sendo negociada com os participantes de todos os setores, como no caso o governo, o patronato e os empregados. E mais, nem todo patrão cumpre a lei.logo, vai ficar à vontade para aprontar contra seus empregados.

  14. Fui advogado durante quase 30 anos de minha vida, antes de entrar no serviço público, e isso ocorreu porque o mercado de trabalho me considerou “velho” aos 45 anos de idade.
    Tive larga experiência como advogado empresarial, e posso afirmar com conhecimento de causa, que a CLT, além de obsoleta, é antidinâmica e obstrui o empreendedorismo, que é a fonte dos empregos do futuro.
    As grandes organizações empresariais, notadamente às de produção, tendem a mecanizar sua linha de produção cada vez mais, o que significa que emprego como se conhece no Brasil, nos dias de hoje, com excesso de protecionismo, que beneficia apenas às entidades pelegas sindicais lulopetistas, será cada vez menor.
    A atual legislação trabalhista é tacanha, retrógrado, e engessa a produção e a produtividade nacional.
    Apenas os que têm medo de trabalhar, não desejam alterações!

  15. Isso não daria certo aqui, existe muito corporativismo, haveria exploração. Com todos os direitos já têm, nos EUA é outra mentalidade, melhores escolas publicas, já aqui os ricos iam tomar de vez o poder.

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