Constituição brasileira é a voz dos políticos, não do povo brasileiro

No Brasil, nos últimos 100 anos, não existiu governo de baixo para cima, mas, sim, de cima para baixo. O que isso significa? É mais fácil dar um exemplo. Pesquisas recentes apontam que a população brasileira seja conservadora e que os conceitos liberais de livre iniciativa e propriedade privada estão presentes, até mesmo, nas periferias. Na verdade, isso sempre foi o caso.

No entanto, nossas constituições recentes foram concebidas sem que houvesse o vínculo com essa dinâmica conservadora e liberal da prática popular. Ao contrário. Foram concebidas para dar poder aos agentes do governo e da burocracia para mudar o jeito do povo.

Constituição brasileira: longe da vida do povo

Isso fez com que as constituições brasileiras, desde 1934, falhassem em espelhar a cultura do nosso povo.  O governo e seus agentes passaram a ditar tudo desde politica econômica à política de lazer. As constituições passaram a ser um conjunto de cláusulas que dá poder a quem as formulou, ao invés do povo. Isso explica, por exemplo, porque temos leis que só existem no papel, e não no cotidiano.

Os nossos representantes, por consequência, optam sempre por se distanciar, cada vez mais, do seu eleitorado através de mecanismos eleitorais complexos. Esse descolamento entre nossas leis e a forma que a política é representada no Brasil explica porque a corrupção e as más práticas na política florescem e perduraram durante todo esse tempo.

O governo Dilma Rousseff só sofreu o impeachment porque agentes políticos iniciaram um processo que elucidou o quão nebulosa é nossa politica. A indignação popular foi tanto contra os envolvidos na Lava Jato, quanto contra nossa própria condição de alienados políticos. Sem que a Lava Jato tivesse ocorrido, a população estaria tocando seu dia-a-dia como sempre fez — distante e removida da política, como os políticos sempre quiseram.

Em meu livro, que será publicado em breve, mostro como o processo de criação de leis no Brasil é feito da forma errada. Aqui, a Câmara dos Deputados e o Senado criam leis e emendas em nossa Constituição Federal que tentam moldar e controlar a cultura e a vida dos brasileiros e, ao mesmo tempo, protege-los do crivo popular. Isso explica ao mesmo tempo porque no Brasil algumas leis não “pegam” e corruptos não são presos.

Tente explicar isso a algum visitante de país desenvolvido, principalmente anglo-saxão. Eles não entendem como o povo pode, simplesmente, ignorar uma nova legislação. Na terra deles, a forma correta é adotar na Constituição Federal as medidas já aplicadas e aceitas no âmbito local, como a lei antifumo, que nasceu em São Paulo e hoje é aplicada em todo Brasil. Essa foi umas das poucas regras que “brotaram em baixo e foram pra cima”.

Precisamos de uma mudança constitucional mais urgentemente que uma mudança cultural. A Constituição Federal deve ser revista, deixando ao Estado apenas o que deve ser essencial para a segurança, à justiça e à ordem politica, e delegando à sociedade, aos estados e aos municípios, a administração do resto.

Sem o sufoco imposto por uma constituição central que só permite ações em prol do bem comum através da burocracia, o brasileiro participará ativamente da vida política do Brasil, naturalmente, indo além das manifestações, bem como vão iniciar processos de revogação de leis e normas utópicas, algo que não é contemplado atualmente por nossa constituição.

O Brasil terá, de fato, um futuro quando deixarmos os brasileiros, não os políticos, terem a voz. Localmente e de baixo para cima. Pois, hoje, sabemos que é muito melhor lutar para ter a nossa voz do que lutar para ter um novo dono.

16 comentários em “Constituição brasileira é a voz dos políticos, não do povo brasileiro

  1. luiz otávio carvalho volpe 4 de julho de 2017 em 18:52 - Responder

    Mas temos que antes acabar com o voto eletronico e voltar tanto ao voto manual quanto à apuração manual, senão o Estamento Burocrático não vai permitir mudanças e fraudará sempre as eleições ao seu gosto.

  2. Everaldo Bernardo Cunha 4 de julho de 2017 em 19:10 - Responder

    Luiz, tenho acompanhado tuas ideias pela Internet, via Facebook, YouTube e, agora, aqui e o que tens falado, tem coerência. Nossa história, assim como nossa política, desde 1889, foram “impostas” pelo governo central. Descentralizar o poder, inverter a “pirâmide” do poder e da distribuição do dinheiro dos impostos, são coisas essenciais para que o país ande para a frente além, é claro, de uma constituição liberal, como fora a de 1824 e que durou mais tempo em nosso amado Brasil. Temos que mostrar a “verdadeira” história de nossa nação, para que as pessoas do presente e as futuras gerações, tenham um país bom para se viver, com leis justas e que funcionem, ou seja, um país de primeiro mundo. A tua voz, Luiz e de outros, que tenho acompanhado pela Internet, já mudaram minha opinião drasticamente e agradeço a ti e a outras pessoas, que têm pensamento parecido, por estarem mostrando que o povo ainda pode mudar essa situação calamitosa em que nos encontramos, onde, praticamente, nada funciona. Muito obrigado, tudo de bom!

  3. George 4 de julho de 2017 em 19:51 - Responder

    Ótimo artigo, Luiz.

  4. Nelson F. L. Soffiatti 4 de julho de 2017 em 20:01 - Responder

    Gostaria de poder acessar esse e outros textos em meu Notebook. Qual é o endereço Net desse material?

  5. Luiz silva 5 de julho de 2017 em 06:24 - Responder

    Estima Luiz Felipe,quando vens a Fortaleza?

  6. José Ferreira de Assis 5 de julho de 2017 em 11:41 - Responder

    O voto de um deputado ou senador pertence ao partido ao qual é filiado, ao passo que deveria pertencer ao povo que o elegeu. Isso uma forma de manter o povo longe da política. Deveríamos acabar com a obrigatoriedade de pertencer a partidos políticos para candidatar. Isso tornaria os partidos e as pessoas do povo em igualdade de condições e assim iria pessoas com perfis diferenciados além daquelas pessoas em que a comunidade praticamente exigiria sua candidatura. Essa prática talvez eliminasse também o fundo partidário, consequentemente baixaria os preços de uma campanha política, pois são exorbitantes em razão da origem ser pública (“dinheiro sem dono”).

    Entendo que um partido político é uma empresa privada, tem dono e CNPJ. Como tal jamais irá defender o povo. Somente irá defender os próprios interesses.

    Que existam os partidos políticos, mas que sejam bancados financeiramente pelos próprios filiados.

    O povo não pode e não deve aceitar que o constituído receba votos do povo e depois volta as leis em nome do partido.

  7. Massaaki Yamamoto 5 de julho de 2017 em 13:46 - Responder

    Príncipe, concordo com o senhor. A sociedade precisa se empoderar e assumir suas responsabilidades.

  8. Kantynho 5 de julho de 2017 em 16:18 - Responder

    —–O governo Dilma Rousseff só sofreu o impeachment, porque agentes políticos iniciaram um processo que elucidou o quão nebulosa é nossa politica. ——–

    Só uma observação meso. Essa vírgula aí não está sobrando não??

    By the way: Excelente artigo!

  9. Alexander Gonçalves Calçada 5 de julho de 2017 em 17:30 - Responder

    Valeu Luiz, vou comprar este livro com certeza, e divulgar as ideias para todos meus amigos e familiares.

  10. Jairo Tércio 5 de julho de 2017 em 22:19 - Responder

    Não importa quanto tempo irá passar. Todos ja sabem que essa República não tem jeito. O unico caminho para reformular toda base da politica brasileira é a restauração do unico Governo que efetivamente funcionava aqui no passado , e funciona até hoje nos melhores Paises do Mundo.
    A MONARQUIA.
    O BRASIL nunca deixou de ser Império. Tanto pela imensidão territorial quanto pela garra do povo, que mesmo em meio as lutas devido as mazelas do Estado corrupto, continuam firmes. E mesmo vivendo em miserias, mantem a classe politica poderosa e rica. Em meio a crise os bancos aqui batem recordes mundial de lucro O Bndes ou Banco do povo concede emprestimos a valores astronomicos para falsos empresarios safados conciliados com politicos roubarem nosso suor . A exportação sempre vai puljante. A carga tributaria corroe até os caixoes dos que ainda nem morreram, NÓS .
    Projetos como transposição de rios são bancados as escuras. E a massa crendo que um Messias vai fazer milagre sendo que nunca se falou em redução de salarios e regalias a politicos. Meu povo terá que trabalhar até 70 anos enquanto um Senador se aposenta com 6 meses no cargo e temos mais de 300 nesta condição. Vamos enchergar o futuro eliminando o presente que ja dura 126 anos, mas vamos resgatar a nossa nacionalidade e orgulho somente através do nosso passado . Quão glorioso era nosso Imperador Dom Pedro II …. Salvem o Brasil gente !!!

  11. Rosane Berce 6 de julho de 2017 em 16:27 - Responder

    Muito bom.

  12. Vinicius Gontijo 13 de julho de 2017 em 09:14 - Responder

    Príncipe Luiz Philippe seus artigos são muito elucidadores. Peço permissão para compartilha-los em minhas redes sociais. Farei as devidas menções de autoria.

    • Luiz Philippe de Orleans e Bragança 13 de julho de 2017 em 09:41 - Responder

      Olá amigo,

      Fique a vontade!

  13. Diego Carvalho 14 de julho de 2017 em 12:19 - Responder

    Perfeito, Luiz! Sou jovem e “iniciei” minha vida como um verdadeiro cidadão quando via pessoas defendendo coisas erradas na política e eu sabia que eram mentiras, mas não sabia argumentar. Naquele dia, me lembro até hoje, me surgiu um sentimento tão ruim, um sentimento de ver minha nação atolada na lama e eu não fazer nada. A partir de então comecei a estudar sobre política, ler sobre o Conservadorismo etc.
    O que nunca entendi são as brechas que a Lei no Brasil tem. A Lei reage de forma diferente para determinadas situações. A Lei não deve ser assim. Ela deve executar aquilo para o qual foi criada, independente de quem seja o acusado.
    Para uma modificação na Constituição qual é o processo?

  14. Bruno Brito Landim 14 de agosto de 2017 em 00:50 - Responder

    Só li verdades …

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