Expansão chinesa e a ameaça à soberania brasileira e de outros países em desenvolvimento
Expansão chinesa e a ameaça à soberania brasileira e de outros países em desenvolvimento

A China já é um poder hegemônico regional. O próximo passo é transformar essa hegemonia em algo global, mas para isso será preciso evitar a “Armadilha de Tucídides”, conceito criado pelo historiador ateniense Tucídides, que descreveu como Atenas cresceu comercialmente e passou a esbarrar com frequência nos interesses de Esparta. Segundo Tucídides, desse atrito veio a guerra do Peloponeso entre Esparta e Atenas em 431 a.C., que acabou enfraquecendo ambos os países.

O inimigo natural chinês é os EUA, seu criador. A abertura dos Estados Unidos para comércio com a China sempre foi uma aposta americana desde a administração de Nixon. Na visão dos Estados Unidos, o comércio criaria uma classe média chinesa que acabaria por demandar um sistema democrático, o que ruiria e destruiria a autocracia do Partido Comunista Chinês. Como podemos ver hoje, os Estados Unidos erraram.

A classe média chinesa que ganha mais de US$ 20 por dia de fato cresceu, e representa hoje mais de 110 milhões de pessoas. O erro norte americano foi em não definir o tempo para o crescimento dessa classe e não definir o tamanho necessário para destituir o modelo unipartidário chinês. Hoje a classe baixa da China, que são aqueles que ganham menos de US$ 20 por dia, representa 90% da população. Percebe-se um grande contraste com o Japão, país no qual a classe baixa representa apenas 17% da população. Seguindo o mantra de “sem classe média, sem democracia”, a China permanecerá um regime autocrático por muito tempo.

É assim que vive 90% da população chinesa.

Para piorar o cenário, o poder central do Partdo Comunista chinês está mais forte desde a era Mao. Como se não bastasse, agora a China promove esse modelo de governo para seus parceiros comerciais diretamente e indiretamente, via a Organização das Nações Unidas (ONU). Não é de se estranhar que alguns de nossos candidatos a presidência já receberam esse recado chinês.

De volta ao problema inicial.

Como a China pode evitar a Armadilha de Tucídides? Primeiro ela pode apoiar outros países que queiram travar conflitos contra os EUA: Irã, Coreia do Norte e Rússia são candidatos óbvios. É o que se chama na política internacional de “proxy war”, ou “guerra por procuração”. Isso ajudaria a tirar o foco da expansão chinesa no Pacifico. Segundo é isolar os EUA políticamente e comercialmente dos demais países.

A expansão da China no Brasil

É aí que entra o Brasil. A China já é o maior parceiro comercial do Brasil e, assim como vem fazendo na África, Nova Zelândia, Austrália, e outros países da América Latina, ela quer assegurar terras que garantam o alimento de sua enorme população e crescente classe média.

A compra de terras brasileiras por chineses a priori não é um problema. Essa questão se torna problemática caso seja o Estado chinês, e não livre iniciativa chinesa, comprando terras. Caso a compra seja feita por interesses do Estado chinês, para garantir que a compra, posse, uso das terras seja feita conforme seus interesses, a agenda política do Estado chines acaba se tornando relevante, e pode influenciar politicamente nossos governantes. Nesse caso o custo de se comprar politicamente os nossos senadores e deputados é muito baixo relativo ao poder de barganha de um fundo soberano chinês. Outro ponto sensível é a possivel restrição dos chineses quanto a nossa re-industrialização. Sabemos que temos matéria prima abundante e a custo baixo e, caso nos re-industrializarmos, isso nos tornaria não só menos dependentes do comércio chinês, como também em possíveis concorrentes.

A China tem feito investimentos bilionários em infraestrutura ao redor do globo. Através do projeto conhecido como “One belt, one road”, ou um cinturão, uma rodovial, a China está criando a versão 2.0 da Rota da Seda. Com um investimento da casa de US$ 900 bilhões, os chineses estão investindo em rodovias, portos, aeroportos e toda sorte de estrutura de deslocamento e escoamento de mercadorias.

Eles fazem porque são bonzinhos? Não. É aí que está o grande porém. Junto com a carta de investimento em uma nação, ou uma linha de crédito especial, a China entrega uma série de pré-requisitos ou garantias a serem seguidas. Ou seja, ao colocar dinheiro chines em uma nação, o governo socialista chinês está também determinando regras e condutas a serem seguidas. Em linhas gerais, a China usa dinheiro e “crédito fácil” para comprar governos.

Outro grande porém é no objetivo desse projeto. A China quer criar uma nova rota de escoamento entre seu mercado interno e outros países, facilitando assim o transito de commodities e material transformado. No longo prazo, isso criará uma dependência comercial inquebrável entre países em desenvolvimento e a China, que será a maior parceira econômica dessas nações. É a conquista de uma Grande China, feita não com a espada, mas com a carteira.

Uma coisa que tem segurado a expansão chinesa é a América Latina como barreira geográfica. O trafego marítimo comercial e militar entre o Atlântico e o Pacífico deve ser feito pela Patagônia, ao sul, o que aumenta o custo e o tempo, ou através do Canal do Panamá, controlado pelos Estados Unidos. Como forma de ganhar competitividade, e também cortar os americanos da equação, os chineses estão investindo na construção de um segundo canal, desta vez na Nicarágua.

Brasil e os Estados Unidos

O Brasil poderia ter sido o maior parceiro comercial e industrial dos Estados Unidos desde 1980. Poderíamos ter obtido o mesmo benefício ofertado à China nos últimos 40 anos, mas a cabeça tingida de vermelho de nossas lideranças impediu que isso acontecesse. Imperaram as “teorias de dependência”.

Qual rumos devemos tomar? O zelo pelos nossos interesses é o começo. O segundo passo é formar um governo com pessoas experientes em negociação internacional.

Deve ficar claro que no jogo internacional nenhuma lei estabelece autoridade. Os únicos instrumentos que valem são a força política e a força econômica.

Infelizmente o atual Império da Mediocridade, que governa o Brasil há muitos anos, nos coloca em segundo plano nesse jogo.

5 COMENTÁRIOS

  1. Existem mais coisas acontecendo no mundo do que apenas a distorcida visão da política brasileira que passa na tv. As outras nações estão construindo planos para 50 anos enquanto ficamos aqui brigando entre nós mesmos e admirando maus exemplos.

    Mais do que nunca precisamos de um presidente que seja brasileiro, que pense no Brasil. Você realmente acredita que tivemos alguém assim até hoje? Sério? Então como estamos cercados de tantas coisas erradas em todo lugar?

    Corrupção passando na tv o tempo todo é uma cortina de fumaça para que não vejamos que nosso país está se tornando cada vez mais socialista. Por esse motivo hoje defendo um presidente que seja brasileiro ao invés de apenas um administrador. Brasileiro e desenvolvimentista. Você não precisa concordar comigo ou pensar como eu, mas acha mesmo que apenas melhorar temporariamente a economia iria resolver nossa situação? Preste atenção no que seu candidato não fala, nos assuntos que ele não comenta, como se tais problemas não existissem. Essa é uma forma de ver através de sua dissimulação e parece um bom critério para se fazer uma boa escolha.

    Eu não quero morar em outro país. Eu quero morar em outro Brasil.

    Segue o link para quem quiser entender:

    “A Raiz do Problema – Como chegamos aqui?”

    https://youtu.be/0qZLULrAaE8

  2. Prezado Luiz Felipe, deixo a seu dispor meu artigo publicado em 2013 , na revista política externa sobre a expansão chinesa em busca de petróleo na ásia central, e algumas lições. Extendo meu convite para um bate papo. Vou entrar em contato via whatsapp exposto na sua página do facebook e podemos conversar.

  3. Infelizmente, desde o golpe de Estado de 1889, esse país jamais teve um plano estratégico de Estado com visão de longo prazo. Nossos objetivos e metas tem, quando muito, a duração de um governo, ou seja, o intervalo entre uma eleição e outra. O Brasil quando vai bem é resultado de um eventual bom governo, o que é raro, daí os vôos de galinha de nossa economia.
    Dificilmente teremos alguma chance até onde a vista alcança, uma população totalmente despreparada para os avanços do século XXI, Estado falido moral e economicamente e nenhuma vontade real do eleitorado em mudar as coisas, haja vista as pesquisas eleitorais para a Câmara e o Senado. Brasil: uma tragédia as anunciada.

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